9. Camões e F. Pessoa – da «pena da
escrita» ao «entendimento superior»

Docente: Prof. Doutor José Carlos Seabra Pereira (U. Coimbra)
Horário: 5ª. Feira, às 10h00 
Início: 4 de outubro de 2018

Programa

I

 

Acertos e dúvidas sobre a vida de Camões; a formação do Poeta (experiência existencial, escolaridade, leituras). A dialéctica de intertextualidade e originalidade na obra poética de Camões.

A construção retórica d’Os Lusíadas. O desdobramento da Proposição no corpo do poema e as modulações do Argumento épico. Aspectos fundamentais da estrutura e do significado (nacional, universal): intenção estética e missão cívico-pedagógica; os planos da fundação identitária e da viagem multidimensional. Os episódios, sua articulação e seu valor funcional; os chamados episódios líricos e cavaleirescos. Gesta (in)conclusa e epopeia aberta.

Dramatismo pessoal e Humanismo cívico n’Os Lusíadas. A reexploração irónica do tópico “Armas e Letras” na avaliação ética e cultural dos «barões assinalados»; a emergência do Poeta como herói alternativo.

A lírica de Camões como poesia de conhecimento. A lucidez crítica no exercício do canto; a consequente subversão dos tópicos da cultura literária, em geral, e da tradição petrarquista, em particular.

Modelizações do Amor e questionações experienciais na Lírica de Camões. Conexa ilustração da erótica hedonista, da pansensualidade radiosa e da euforia naturalista próprias do Classicismo renascentista; sua apoteose e sua crise n’Os Lusíadas e nas Rimas. A reelaboração camoniana do amor edificante pela donna angelicata e do optimismo espiritual com matriz no dolce stil nuovo; a sua corrosão pela experiência de labilidade e desengano. Adesão mental e reacção existencial perante a visão neo-platónica do Amor. Aspectos temáticos e formais do enamoramento petrarquista e das suas derivações na análise subjectiva, na visão paradoxal do Amor, na mundividência problemática e na concepção de poesia; o motivo do «apartamento» na lírica de Camões e a visão desenganada do amor e condenação moral do desejo.

O «desconcerto do mundo» na lírica camoniana: meios de expressão e níveis de sentido de um vector fundamental na poesia de conhecimento. O significado psicológico do «desconcerto»: aprofundamento agónico do dissídio petrarquista até à autognose na cisão íntima. O sentido ético-social do «desconcerto» e a alteração pessoalizante da perspectiva tradicional do tópico do «mundo às avessas». O alcance metafísico do «desconcerto do mundo» na lírica de Camões. A razão oscilante entre o pressuposto do «regimento» do mundo e a experiência do «desvario» universal, entre a crença na Providência divina e a hipótese de um Deus absconditus e/ou otiosus. A vertigem do absurdo e do confisco do livre arbítrio.

A exasperação emocional e o discurso da grandeza maldita do sujeito poético; a hipótese do poder demiúrgico da Poesia. Apogeu estético e insuficiência antropológica da “poética do desafogo” na lírica de Camões. A permanência do bloqueio do Homem perante o «desconcerto» e a Fé como refúgio derradeiro – mas sem iluminar a razão oscilante, nem reger o «desvario» existencial.

Reconhecimento da responsabilidade pessoal e superação metafísico-religiosa do pessimismo perante a existência e do cepticismo perante a poesia: as redondilhas «Sôbolos rios que vão» como suma e resolução (doutrinal, estética) das suas aporias; a elegia augustiniana «Se quando contemplamos as secretas» como poesia de confronto filosófico, de doutrina teológica, de missão soteriológica e de fervor na contemplação dos mistérios da Criação, da Encarnação e da Redenção.

 

II

 

Situação estético-literária de Fernando Pessoa num contexto de dissídio das modernidades sociológica e artística.

A juvenil busca pós-baudelairiana do Novo (a escrita de Alexander Search e outros tentames). Os programas estéticos em função do Modernismo e das Vanguardas (Paulismo, Interseccionismo, Sensacionismo…).

Doutrina literária e metaliteratura em F. Pessoa.
O fingimento poético e suas múltiplas implicações. A objectivação textual da ficcionalidade lírica.Valor axial da ironia e desígnio de auto-consciência humana. O vector dramático na escala dos «graus» da poesia lírica.

O fenómeno da heteronímia: «drama em gente» e poemodrama em tempo de crise do sujeito e de crise epistemológica. Descentramento do eu, radicalização da ironia e desmultiplicação discursiva. A escrita alteronímica como dispositivo de pensamento e como programa genotextual. Funcionalidade das criações alteronímicas na dinâmica coeva do campo literário.

O papel do «mestre» Alberto Caeiro e da «prosa dos meus versos». Denúncia profiláctica das fantasias religiosas e sentimentais do(s) Neo-Romantismo(s) e do pampsiquismo oracular do Saudosismo; programa de «desaprender» e tentação de anti-semiose. Retórica argumentativa e metafísica negativa em Alberto Caeiro. A complexa relação do poeta com a «espantosa realidade das coisas»: intuitos e tensões do «descobridor da Natureza». Paródia e contaminação na intertextualidade franciscana de poemas de Alberto Caeiro.

A irónica (não-)modernidade da matriz clássica das formas e dos temas, motivos, mitos e símbolos na poesia de Ricardo Reis. O labirinto do Tempo e a liberdade na Necessidade: laivos nietzscheanos do epicurismo triste e do esteticismo de Ricardo Reis; prevenção estóica e carpe diem horaciano na sua teosofia pagã.

A trajectória de Álvaro Campos. Dos resquícios decadentistas ao lema «Sentir tudo de todas as maneiras» – excessos e fissuras na energia discursiva de Álvaro de Campos. Retórica vitalista e aquisições futuristas nas grandes odes sensacionistas. «Tabacaria» e a fecunda negatividade na evolução da obra poética de Álvaro de Campos. As odes à Noite e a sortílega melancolia do último Campos.

Bernardo Soares e o significado de um semi-heterónimo na estratégia literária pessoana. A ironia estrutural do Livro do Desassossego; o fragmentarismo textual e os labirintos do sujeito, da consciência e da escrita nas derivas de um quotidiano circunscrito. Cena da escrita, soberania da língua e lógica do simulacro no Livro do Desassossego.

Variações pós-simbolistas do Cancioneiro ortónimo sobre a primazia da subjectividade em cisão, sobre a Sehnsucht sem aura e sobre os anúncios malogrados ou vislumbres evanescentes de epifania.

Sob o signo do Mistério na “era da suspeita” : possibilidades de leitura gnóstica da obra de Fernando Pessoa. A poesia de Conhecimento esotérico como mais alta vocação da estirpe dos “Poetas malditos” na modernidade pós-romântica. Imaginação ocultista e rito iniciático; a questão psicológica e a metafísica do Inconsciente. O efeito de conotação esotérica sobre poemas líricos do Cancioneiro e poemas mítico-políticos. A Mensagem e a aventura da Consciência no horizonte (imaginário, simbólico) de messianismo lusíada.