INSTITUTO CULTURAL D. ANTÓNIO FERREIRA GOMES
DIA DO INSTITUTO
6 de junho de 2020
EM MEMÓRIA E HOMENAGEM A FREI BERNARDO DOMINGUES, OP

FREI BERNARDO, OP – Uma perspectiva conventual

Pediu-me a Direcção do Instituto D. António Ferreira Gomes (ICAFG) algumas palavras, por escrito, acerca do frei Bernardo, por ocasião do Dia do Instituto, que se celebra no dia 6 de Junho, e que este ano será dedicado à invocação e comemoração da sua vida e obra. Muito se tem escrito, e bem, acerca do frei Bernardo. Aproveito, então, para revelar uma perspectiva que pouca gente conhecerá: a perspectiva de quem com ele partilhou a vida fraterna comum, no espírito de São Domingos.
Conheci o frei Bernardo em Setembro de 2011, quando fui assignado ao Convento de Cristo Rei, no Porto. Tinha ele 80 anos, celebrados no dia 13 de Maio, por sinal uma data muito significativa e fácil de fixar para a generalidade dos portugueses.
Na altura, e ainda por muito tempo depois, o frei Bernardo, juntamente com o frei Pedro, constituíam, sem exagero, os dois pilares da comunidade de Cristo Rei e os eixos fundamentais do dinâmico movimento sócio-pastoral que caracterizava a paróquia com o mesmo nome.
O frei Bernardo viria a falecer na noite de 21 para 22 de Fevereiro de 2019. Convivi com ele, portanto, durante quase oito anos no Convento de Cristo Rei. Entre outros aspectos acerca da sua personalidade e modo de ser e estar, irei sublinhar apenas três que me chamaram mais a atenção ao longo destes anos de fraterna e cordial convivência: a sua capacidade de trabalho; a sua disponibilidade para os outros; e o seu sentido de humor.
Como acima dizia, quando conheci o frei Bernardo já ele tinha 80 anos, mas é como se os anos, e, sobretudo, alguns (graves) problemas de saúde que o haviam recentemente sobressaltado, nem sequer tivessem passado por ele. Dadas as circunstâncias, a sua capacidade de trabalho era verdadeiramente impressionante. Sempre muito solicitado, recordo-me das inúmeras celebrações litúrgicas a que presidiu, entre eucaristias, baptismos, casamentos, exéquias, comunhão e unção dos doentes, confissões, assistência espiritual de diversos movimentos apostólicos (várias Equipas de Nossa Senhora; Médicos e Enfermeiros Católicos; assistente do Grupo 33 dos Escoteiros; fundador da Legião de Maria no Porto; etc.), entre outros afazeres.
Aliado a esta vida pastoral e litúrgica de grande intensidade, nunca deixou, ao longo destes anos, de continuar a escrever e a publicar várias obras de interesse científico e pastoral. Ao longo da sua vida, foram publicadas várias dezenas de obras. Segundo o testemunho do seu amigo de longa data, Prof. Walter Osswald, o frei Bernardo escreveu 88 livros (!).
Os seus livros giravam essencialmente à volta de alguns temas de eleição, onde destacaria a psicologia e a pedagogia; o personalismo cristão; as suas diversas perspectivas acerca da ética dos cuidados de saúde e da bioética; e, enfim, a arte de viver em comunidade com espírito de serviço e de solidariedade activa.
Estes temas falam muito daquela que foi uma influência decisiva no seu pensamento: a filosofia de Emmanuel Mounier. Efectivamente, este filósofo francês da primeira metade do séc. XX, fundador da revista ‘Esprit’ e autor de numerosas obras de referência na área do personalismo cristão, com influência directa no ideário e acção de muitos partidos da chamada ‘Democracia cristã’, exerceu sempre um efeito intelectual profundo no frei Bernardo. Não é por acaso que a sua tese de doutoramento versou, precisamente, sobre o pensamento e obra de Emmanuel Mounier.
A inusitada capacidade de trabalho do frei Bernardo ligava-se, umbilicalmente, a outro aspecto da sua maneira de ser: a disponibilidade para os outros. Era, sem sombra de dúvida, outra ‘imagem de marca’ do frei Bernardo. Como dizia, em tantas ocasiões, com grande acerto, “Quem não vive para os outros nem sequer vive para si”.
Apesar do parecer contrário dos médicos e dos seus irmãos de comunidade, tantas vezes me recordo do frei Bernardo a subir e a descer as escadas que ligavam a clausura à portaria conventual, em permanente rodopio, pois não faltavam pessoas que o procuravam incessantemente para se confessarem, para lhe pedir um conselho, ouvir uma palavra amiga, ou, simplesmente, para serem escutadas e desabafarem. Nunca o vi recusar atender alguém que o procurasse, mesmo com grande sacrifício para a sua saúde e para as suas forças físicas já muito debilitadas.
Finalmente, o frei Bernardo caracterizava-se pelo seu sentido de humor, um humor por vezes mordaz e, não poucas vezes, provocante, mas dentro dum quadro de fraternidade conventual. Tinha também um toque de humor tipicamente britânico, com a capacidade, pouco usual no nosso país, de se rir de si mesmo, não se levando muito a sério, algo que, inadvertidamente, lhe confirmava a posse duma virtude cristã de grande valor: a humildade evangélica. Enfim, foram muitas as vezes em que pude testemunhar o seu bom humor, inclusivamente na última ceia de Natal que passamos juntos, em comunidade, desfazendo com finura e graça alguns panegíricos que lhe eram ingenuamente dirigidos em razão do seu frágil estado de saúde.
Numa sentida homenagem que lhe foi feita na UCP, no Porto, pouco depois da sua morte, o frei Bernardo foi apresentado, por três oradores diferentes, em três facetas: como ‘Professor’, como ‘Pastor’ e como ‘Amigo’. De facto, foi nestas três dimensões que o frei Bernardo alicerçou a sua vida de entrega aos outros. Professor na Escola Garcia da Horta, na Escola de Enfermagem do Porto e na UCP; Pastor, como acima tivemos oportunidade de ver com tantos exemplos; e, por fim, Amigo. E tantos amigos tinha o frei Bernardo! Bem sabem eles porquê…

frei Gonçalo P. Diniz, op
Porto, 26 de Maio de 2020